27 de agosto de 2007

O verdadeiro quadrado mágico - Parte I

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O chamado WM inaugurou os esquemas táticos no futebol e é o pai das estratégias de hoje.

Um esquema tático é importante? Os técnicos de futebol só começaram a se preocupar com isso na virada do século 19 para o 20. Mas o britânico Herbert Chapman provou que sim, é muito importante, nos anos 1920. O Arsenal treinado por ele foi bicampeão inglês em 1930 e 31 e apontado como melhor time da década. Por quê? Porque, antes disso, os times jogavam sem grandes esquemas táticos. Todos os jogadores se lançavam ao ataque. Mas foi Chapman quem criou a implantou no Arsenal a formação WM e passou a mostrar a importância da organização do meio campo. O WM é o clássico 3-4-3 ou mais especificamente o 3-2-2-3, porque mantinha três jogadores na defesa, três no ataque, com quatro homens no meio campo (dois auxiliando a defesa; dois, o ataque). Os números que designam os esquemas táticos se referem à quantidade de jogadores na defesa, no meio e no ataque, sempre sem contar o goleiro.

Segundo o técnico de futebol, preparador físico e professor de educação física Ricardo Drubscky, em seu livro “Universo Tático do Futebol”, desde aquela época, o WM foi chamado de “quadrado mágico”. Nesse sistema, o quadrado do meio deveria retomar a bola e armar o contra-ataque para os dois pontas e o centroavante. Pelo menos o de Chapman funcionava. O WM marcou uma evolução definitiva no futebol e, a partir dele, novas variações foram apresentadas. Para alguns técnicos e, sobretudo, cronistas esportivos, Chapman, no entanto, foi o pai dos retranqueiros. Afinal o WM marca definitivamente o recuo de jogadores para a defesa e o meio-campo. Até então, os times partiam com tudo para cima do adversário, deixando lá atrás só o goleiro.

O professor Drubscky, no entanto, sai em defesa do WM. “Há de se notar que as inovações táticas preencheram espaços em campo, privilegiaram a técnica, incentivaram evolução na preparação física e transformaram o futebol num esporte rico em detalhes, cheio de estratégia.” Antes, um time precisava de força bruta ou talento individual para chegar ao gol adversário. Hoje, como mostraram na Copa o eliminado Brasil e a campeã Itália, as equipes precisam de um conjunto harmônico, com ações coordenadas e combinadas e muito treinamento.

ANTES VALIA ATÉ MÃO

Em 1863, os ingleses criaram algumas regras para o futebol, e, desde então, o esporte é o mais parecido como o que se joga hoje. Até 1871, os 11 jogadores podiam pôr a mão na bola. A partir dali, a função ficou exclusiva do goleiro.
Naquela época, os times eram super-ofensivos, com formações que passaram pelo 1-1-8, 2-2-6 e 1-2-7. Até o WM, o esquema que imperou no futebol apareceu em 1883 e era o 2-3-5, chamado de “esquema clássico” ou “pirâmide”. O WM foi um marco ao fortalecer a defesa com o recuo do meia central e dar importância ao quadrado do meio campo. Assim os dois meias que sobraram receberam funções mais defensivas, e foram recuados dois atacantes e transformados em meias-armadores.

INVENÇÃO BRASILEIRA

Nos anos 1950, surgiu no Brasil uma variação mais ofensiva do WM, O 4-2-4. O técnico Martim Francisco, do Villa Nova (MG), avançou um meia para o ataque e recuou um meia para a defesa, criando o quarto zagueiro. O esquema encantou o mundo com a Hungria de Puskas em 1954, com uma formação super-ofensiva com quatro homens em linha no ataque.

No primeiro título mundial brasileiro, em 1958, na Suécia, enquanto a maioria das seleções jogava no 4-2-4 húngaro, o Brasil inovou com um 4-3-3, no qual o ponta-esquerda Zagallo voltava para ajudar os dois jogadores do meio. O Brasil tricampeão de 1970 retomou o esquema 4-2-4, com Clodoaldo e Gérson no meio, só que mais compacto, com o ataque mais próximo e subidas e descidas constantes de Rivelino, Jairzinho e Pelé. Apenas Tostão ficava mais fixo na frente. O time defendia e atacava em bloco.

Com as evoluções táticas e condicionamento físico dos jogadores, o futebol ganhou competitividade e muita disputa pelos espaços em campo. Tudo herança do WM. Por isso um jogador expulso hoje faz tanta falta ao time. Se a expulsão for no final do jogo, o time pode até “se segurar”, mas jogar um tempo inteiro ou mais com dez jogadores contra 11 pode ser fatal. Ironicamente, 120 anos depois do esquema 1-1-8, os técnicos fazem exatamente o contrário: se tiverem um jogador de defesa ou do meio expulso, substituem um atacante por um outro da função que ficou desfalcada. Como se repete no clichê esportivo de rádio e televisão, o técnico “recompõe seu sistema defensivo ou seu meio-campo”.

Na Copa de 1966, o técnico da Seleção Inglesa campeã do mundo, Alf Hansey, outro “retranqueiro”, tornou o esquemaainda mais defensivo. Hansey manteve o quarto zagueiro e recuou um atacante para o meio-campo, formando o 4-4-2, esquema preferido até hoje.

Na Copa de 1974, o técnico holandês Rinus Michels apresentou o Carrossel Holandês. No papel, a Holanda de 1974 jogava um 4-3-3, mas zagueiros e meias, meias e atacantes se misturavam nas funções, fazendo um rodízio em campo. Sob o comando do capitão Cruyff, o Carrossel Holandês revolucionou a tática e apresentou o futebol total, com marcação por pressão e defesa e ataque em bloco.

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Resolvi dividir em duas partes esse maravilhoso artigo feito pela revista Invicto. Amanhã eu posto a segunda e última parte. Abraços.

Fonte: Revista Invicto (Estanislau Maria)

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